A memória, essa traiçoeira
“Dentro de nós há um espesso sistema de corredores e de portas fechadas. Nós próprios não abrimos todas as portas, porque suspeitamos que o que há do outro lado não será agradável de ver.
Vivemos numa espécie de alarme em relação a nós mesmos.”
José Saramago
A memória é uma das faculdades do cérebro, onde codificamos e armazenamos informação. A verdade é que quando necessitamos de alguma informação aí guardada, temos a capacidade de a encontrar no meio de tantos dados guardados. Vamos retendo informações para futura utilização e até para influenciar determinadas ações.
E o que nos acontece quando queremos recordar-nos de algo e não conseguimos? Chamamos amnésia a esse fenómeno.
Na realidade, sem memória não teríamos acesso ao desenvolvimento da linguagem, de relacionamentos interpessoais e até mesmo a criação da identidade pessoal era afetada. A memória, essa traiçoeira; quando queremos perdoar um acontecimento, ou esquecer um trauma, um marco mais negativo no decorrer da vida, pumba! Isso não acontece. No entanto, nem tudo são más notícias, comece por aceitar as memórias que lhe surgem, deixe-as fluir, pois elas vêm e vão, a nossa capacidade de retenção dos pensamentos é que nos faz por vezes “ruminar” sobre determinado tema. É assim como se a memória quisesse ir embora e nós fizéssemos um esforço para a reter, por acharmos que assim, conseguimos resolvê-la, conseguimos encontrar uma solução meio que mágica para acabar com essa memória. Aceite que essa memória foi gravada, fez-lhe sentido retê-la no seu banco de dados, para algo lhe serviu e algo aprendeu com ela, agora, deixe-a vir ao pensamento e sinta-a, o que lhe traz de bom? E de mau? O que aprendeu com esse momento da sua narrativa de vida? De certeza que algo mudou, que algo foi diferente a partir dessa memória. Deixe de suspeitar que o que há do outro lado dessa porta das memórias é algo com que não sabe lidar, sabe sim! Desligue o seu alarme, você não é as suas memórias e basta perceber uma coisa, por muito pequena que seja, em relação às mesmas, para que o seu mundo se comece a alterar.
Todos nós somos pessoas únicas com memórias semelhantes e diferentes, mas garantidamente, vivenciadas em absoluto de forma distinta. Viva as suas memórias e pense quais são as rotinas que lhe ocorrem para transformar as más memórias em aprendizagens e as boas memórias, em elementos de uma vida épica.
Temos tendência para dizer recordo-me… e claro que sim, que se recorda, mas o que a memória lhe traz já não é o ato em si mas a história que associa ao que aconteceu, é a sua interpretação e que é tão válida como o momento em que a viveu e posteriormente, a registou, gravou e assimilou.
Pense em quais são as suas crenças, o que acredita que lhe aconteceu? Sinta a memória e traga-a para o presente, como se a estivesse a viver agora. Que cheiro sente, que sensação e emoção sente, quais as cores que lhe surgem associadas a essa memória? Tudo isso é hoje, é agora, liberte a memória e se for para aprender algo ou influenciar o seu futuro, quer em termos de emoções, quer em termos de ações, assim acontecerá. Não evite abrir as portas da memória, ela só é traiçoeira às vezes. 💙

