Agora quero ir-me embora
Olá, hoje dedico esta dança de letras a todos os que têm tido a amabilidade e candura de lerem os diversos posts e por isso começo por agradecer, grata pela cumplicidade.
João dos Santos, psicanalista, foi considerado o criador da moderna saúde mental infantil em Portugal. Escuso de vos dizer o homem incrível que foi e que a certa altura se cruzou no meu caminho profissional, com grande capacidade de ensino e eu com grande vontade de aprender com o brilhantismo das suas características inovadoras sobre a saúde mental infantil, ressalvou a capacidade da criança dizer o que sentia e como o sentia.
A ingenuidade infantil que permitia a uma criança dizer-lhe “Agora quero ir-me embora” por não lhe apetecer continuar numa sessão.
Questionarão por que introduzo desta forma o tema e apenas o faço pelo título do seu livro, que reproduz um conjunto de entrevistas realizadas por João Sousa, sob o título deste post, ter sido a inspiração desta partilha.
A candura da criança que se permite Ser e pelo caminho que nós, adultos, já percorremos e pelo facto de por vezes, nos obrigarmos a não ir embora, quando somos expostos a algo de que não gostamos e que nos faz sentir mal, violentados mesmo.
Recordo-me de Pedro que me dizia, com ar cansado “já não o aguento mais, são reuniões atrás de reuniões, para não chegar a lado nenhum. Para tudo ficar na mesma!” e quando questionado sobre o que pode fazer para alterar isso, uma vez que é uma violentação pessoal, respondeu-me com a candura de criança “tenho contas para pagar”.
O que nos faz ficar presos a um status quo que muitas vezes nem existe? Às razões que a insegurança gera? Pedro propôs-se a, durante este período de férias pensar que outras formas podem existir e até criar, de ganhar dinheiro. Acrescentou que vai fazer um levantamento exaustivo das despesas fixas da família e envolver a mulher numa conversa entre o equilíbrio familiar e o profissional.
Recordo-me do impacto em terapia que o P de Poder tem e todos os alertas foram acionados para ir buscar o P de Proteção, quando a pessoa põe tudo em causa. Sem discordar de Pedro, promovemos que o que se propõe fazer pode ser um plano B e que para já o plano A, o que está a funcionar, mesmo que lhe apeteça ir embora, vai de férias – excelente oportunidade para Ser e descobrir o que gosta de fazer, no entanto, necessita de iniciar esse período por apenas Ser e repousar, depois sim. O Ser já repousado dá espaço à criatividade e ao olhar e sentir interior.
Pois é esse mesmo o assunto que hoje aqui me traz. A tomada de consciência de que há alturas na vida em que temos de ter a capacidade de viajar até à infância e sem filtros, dizer o que sentimos, o que nos passa pela cabeça. Considero que este é o momento em que podemos aproveitar para olhar para dentro e sentir o que nos apetece fazer.
Há pessoas que vão à praia, outras para o campo, outras, por opção, ou por necessidade, ficam a trabalhar, o importante é a promoção do repouso que é merecido após um ano de trabalho em período atípico de pandemia.
Quem vai de férias, proponho que tire alguns minutos, horas e se possíveis dias, em que se consegue retirar para decidir “Agora quero ir-me embora”, o que é que quer fazer hoje? Faça-o livre de obrigações, parta de férias das tarefas e assuma como o pode e quer fazer. Pare de estar em rotinas, flua com o tempo e não me refiro aqui à meteorologia, mas sim às vinte e quatro horas do dia.
Agora dirijo-me a quem fica a trabalhar e por necessidade não pode usufruir de período de descanso, de se ir embora, comece o dia por ouvir uma música agradável, feche os olhos, inspire e expire profundamente sem pressa. Garanto-lhe que estes minutos são recuperados em qualidade de vida e acima de tudo, em qualidade de Ser. Recorde que é o Ser mais importante da vida, mesmo que ache que muitos outros dependem de Si, o essencial é o seu bem-estar para que possa, caso queira, continuar a cuidar dos outros.
Agora quero ir-me embora, significa que vamos repousar, recarregar as nossas energias de Ser e voltamos no início de setembro.

