Para onde vão os silêncios
Um dia Maria disse, as minhas palavras não têm palco…vivem na levitação dos sentimentos…Quantas vezes, o silêncio é inteligente, sinónimo de tranquilidade e quantas vezes é doloroso. Aquela dor que imaginamos ter vindo para ficar.
Saber estar em silêncio, é um dom ou uma capacidade a desenvolver. Num séc. XXI, repleto de tarefas, de estimulação ao fazer, convidamo-lo a saber estar em silêncio. O que está por detrás do seu silêncio? Para onde vai o silêncio, por que mares navega a mente?
Há quem encontre conforto no silêncio, o promova como forma de estar, de encontrar equilíbrio, serenidade e o aceite como um repositor energético. Outras pessoas há, que não suportam o silêncio e que passam a vida a dizer: e agora, não tenho nada para fazer? E a achar que “parar é morrer”. Repouse Ser vivente, sinta para onde vai o seu silêncio…inconfortável? Então use a palavra, partilhe, elas são a expressão de feridas internas, atuais e passadas, transporte os afetos para quem confia e deixe que as palavras sejam o seu veículo.
No palco da vida, o silêncio da dor é, por muitos chamado a miséria isolada, aquela em que a pessoa se fecha sobre o seu espetáculo, qual ator presente e ausente.
Em violência doméstica e maus tratos, o silêncio é muitas vezes, a opção para evitar o confronto final. A questão é que esses silêncios dolorosos minam, obnubilam a vida e potenciam a mágoa, a que destrói o corpo, o físico e o psíquico.
A fantasia do silêncio, associada à dor, é a de que a partilha não adianta, não há empatia que entenda a dor extrema. Uma história é uma biografia única e mais ninguém nos 7 milhões de humanos que coabitam a terra, pode entender as minhas palavras e assim, retiro-me deste palco e fecho-me no camarim da vida…eu, comigo e a minha dor!
Também a criança se refugia nos cobertores e lençóis da sua cama, como se de um castelo se tratasse, pedras erguidas uma a uma, construído sem portas e sem janelas e fechado por dentro…só a fantasia entra, aquela que diz que um dia, talvez hoje, não se repita a história da agressão…talvez esse adulto acorde sem vontade de agredir, bater e chamar nomes inaudíveis e que não se entendem.
Desafiamo-lo a que não fique indiferente, esteja atento aos seus silêncios, aos silêncios dos que o rodeiam, são expressão de palavras não ditas, proibidas, ou são um retiro gerador de prazer?

