Amo demais?

Amo demais

Amo demais?

 

Recordo-me de um livro que li há imensos anos e que se chama “Mulheres que amam demais”, a escritora Robin Norwwod, explica ter reconhecido na sua experiência profissional que há mulheres que sofrem de um transtorno a que chamou “amar demais”. A autora, reconhecida a nível mundial, dedicou este livro a mulheres, no entanto, poderíamos estender este conceito a Homens que amam demais, também.

Falamos de amor e de amar, falamos de sofrer por amor e naturalmente não nos surge referir que amamos demais, que sofremos de uma síndrome, em que damos demais, exigimos demais e descontrolamos toda a vida em prol desse amor, na expectativa de….

Quando o padrão de relação ultrapassa o equilíbrio da vida, ou seja, fica exagerado, com restrições impostas a ambas as partes, manifestação de sensação de perda constante, de troca, de rejeição, com exigências exageradas, com agressões verbais, por vezes físicas, normalmente seguidas de grandes pedidos de desculpa e declarações de grande Amor, significa que o relacionamento amoroso está num ciclo, estágio, ou o que lhe quiserem chamar, que significa um relacionamento mórbido. Ou seja, que já faz mal à saúde emocional e ao bem-estar do próprio e do outro, que gera alertas constantes, stress e necessidade de estar atento a cada movimento, a cada frase e expressão verbal.

Conheço mulheres e homens que apesar do desgaste da relação, consideram que amam o outro e que o outro tem apenas uma estranha forma de amar.

Hoje, Isabel mostrou-me um pequeno comando preto com um botão que mais tarde percebi ser intitulado de alarme ou pânico (como chamamos em Clínica). Quando vi aquele aparelho não percebi o que era, parecia uma espécie de comando de garagem. Pensei que estava a partilhar uma agradável novidade…quando a questionei sobre o que estava por detrás daquele aparelho, disse-me em sussurro, “ele tem andado atrás de mim e agora ameaçou-me de morte”. Fiquei estarrecida, a quem se referia? Assim como que meio atordoada, de quem fala a Isabel?

Aquela mulher cheia de vida, sempre de sorriso nos lábios e que em dois minutos me explicou que a sua vida tinha mudado de tal maneira que quando se veste de manhã, tem sempre que pensar em vestir algo com um bolso para lá colocar o dito aparelho com o tal botão de alarme, aquele que a salva se for necessário e que previne a polícia para ir ao seu encontro e atuar junto de quem não conseguem afastar dela. Tudo por que apenas, como me disse “porque amo…” alterou a expressão, “porque amei demais o Pedro”.

O meu conhecimento sobre a Isabel era mínimo, sempre que ia àquele local cumprimentávamo-nos e a alegria e amabilidade dela transbordavam por todo o espaço. Senti que aquele momento era único para a escutar e pedi para ser atendida por ela. Assim foi, quando perguntei pouco mais do que “o que tem feito para se recompor?”, ocupou o espaço que estava disponível para um desabafo profundo e para a expressão do amor que sentiu, sente, sentiu, ia mudando a forma do verbo, pelo Pedro. O que a tinha seduzido, os primeiros tempos, os primeiros sinais de agressividade e ameaça, as suas reações e a necessidade de desculpas constantes face a estes comportamentos, com os olhos ternos de sempre disse “ele tinha bebido…” ou “ele estava cansado…”. Até que um dia teve a força necessária e saiu discretamente em relação à polícia e pediu ajuda…essa ajuda que obriga a reviver momentos guardados na memória mais afetiva e onde as mágoas emocionais estão tão bem fechadas de tal forma que não apetece lá voltar. Mas tem de ser, só assim começa o processo, ou antes, o novo processo, aquele em que a Isabel se vai cuidar e é um caminho solitário pois as suas explicações, apesar de claras, só por ela são sentidas.

É fácil quando a sua maior amiga lhe dizia “se Eu fosse tu…”, pois é cara amiga, a senhora não é tu, nem pode ser, só quem fica sem energia, pela agressão verbal, a escuta diária de que não vale nada, de que não sabe fazer nada, de que as outras mulheres é que se arranjam, é que são bonitas, depois vem o dia em que há uma pequena agressão física, seguida de uma com maior impacto e que vem acompanhada da vergonha social do que os outros vão ver no rosto, no braço. O aceitar de pequenas desculpas no início, tudo por Amor, depois grandes desculpas que significam que para além do Amor, há um passado que foi duro, ou um jantar com mais bebidas alcoólicas. O vestir de uma camisa de manga comprida num dia verão, ou a utilização de uma base sobre a face direita, permitem à Isabel manter a vida como se no exterior, nada se passasse e no interior, o castelo está a desmoronar-se, a princesa perdeu o seu vestido e a vontade de se arranjar. Isabel disse-me que já não se arranjava, pois se o fizesse, Pedro dizia que o fazia para os “outros” e nunca para ele.

A história de Isabel é uma que até está a decorrer de forma apoiada, no entanto e muito se fala sobre maus tratos, muitas Isabéis não têm força e não sabem como pedir ajuda…apenas amaram demais e foram perdoando por Amor tudo o que acontecia. Por vezes só quando o/a agressor/a se vira contra os filhos, a vítima, atua ou pede ajuda e quantos há que totalmente sem energia, com uma tristeza profunda, já não consegue agir, apenas vive…e que vida!

Pois falamos da Isabel, mas podia-vos contar a história do José que durante anos, maltratado verbalmente chegou um dia que percebeu que lhe desapareciam coisas, que aos olhos do filho ele era um agressor, empurrava a mãe. Não que o filho tivesse alguma vez visto, mas porque a mãe lhe dizia o quão agressor era o pai, ela que nunca na vida tinha trabalhado tinha as duas casas, os dois carros e um terreno na zona centro, em seu nome. Um dia José acordou com a mulher a agredi-lo e foi aí que procurou o apoio da polícia.

Amar demais não significa chegar a este limite, significa sim tomar consciência de como estão a viver a relação, de colocar um travão na primeira vez em que um detalhe agressivo, depreciativo, acontece. Amar o próprio, antes de amar quem não respeita. Procurar apoio num vizinho, num amigo, flexibilizar um comportamento desviante é permitir que ele se desenvolva, se potencie e que um/a potencial agressor/a, se fortaleça.

Sinta como está o seu equilíbrio ao Amar e ao Ser Amado. O Amor de uma relação equilibrada também tem viagens conturbadas, palavras mais duras, mas nunca com agressão verbal ou física, não o admitida e estabeleça limites desde o primeiro momento. Quem Ama entende esta linguagem.

Gostava ainda de deixar um alerta, olhe à sua volta, valorize cada sinal que lhe pareça de alerta, não espere por essa pessoa ter de andar com um aparelho com botão de pânico.

Ame-se e ame quem mais valoriza, mantenha equilíbrio na sua relação e veja como está o seu grau de confiança em Si e no Outro.