A importância do luto
Teresa dizia que tinha receio de começar a chorar, perguntei-lhe o que a levava a sentir esse receio e respondeu que “era como se de uma torneira se tratasse e que, quando a abrisse, não fosse mais possível fechar.” Apesar de ser uma fantasia, a verdade é que a analogia acarreta em si a carga da dor sentida.
Que receio tão forte pode levar uma pessoa a evitar, ou antes, a achar que pode evitar a expressão da dor que um luto pode causar, é uma questão premente.
Ao pensarmos em luto, pensamos em amor, carinho e tudo o que estas poderosas emoções acarretam, quando privados de forma real, da presença de alguém.
António Coimbra de Matos, psiquiatra e psicanalista, fala do luto normal como sendo o da “memória e da substituição”. Ou seja, ao longo do tempo vai-se substituindo essa figura real que desapareceu por outra pessoa, ou pessoas, falamos aqui de emoções e não de esquecimento da pessoa em si.
Autores há que alertam para a diferença entre luto e depressão, assinalando que a segunda é a reação à perda do afeto de alguém que importa ao próprio.
Atualmente, sabemos que a forma de apoiar a pessoa em situação de luto, não tem uma forma única de atuar, de prever a reação face à situação de perda. Cada pessoa é um universo de emoções e vive-as de forma distinta. Há quem necessite de recordar constantemente a pessoa real, busca-a em cada objeto, cada local, cada música, enquanto outras reações possíveis são a fuga às memórias mais presentes.
Reforçando o aspeto de que cada Ser é único, o luto e o facto de ser vivido, significa um processo de transformação, de mudança e é, garantidamente, um processo psicológico para a aceitação da perda e para a adaptação à realidade que surge como nova e diferente.
Um luto é necessário ser vivido, sentido e a tristeza é inevitável, há um contexto, uma estrutura que se quebra e cada Ser necessita de um tempo, do Seu tempo, para reativar significados, elaborar e reelaborar sentimentos. A convivência entre dois Seres é valorizada e investida por ambas as partes, quando um elemento deixa de ser real, deixa de existir, há a necessidade de deixar fluir a dor, a tristeza e mágoa da perda para reunir as forças necessárias, ou encontrar substitutas, para a continuidade da vida, agora órfã de alguém.
Li algures que “um dia alguém te vai abraçar tão forte, que todas as tuas partes quebradas se unirão de novo” e esta frase recorda-me o quão fundamental é a vivência do luto para conseguir seguir o caminho, este novo caminho enriquecido de memórias e empobrecido pela falta do toque, do sorriso, da presença física.
Pense nos seus lutos e aceite-os, viva-os e verá que o caminho não é o esquecimento e sim, o reanimar de determinadas emoções e memórias vividas, através de outros e com outros. 💙

