Somos princesas?

Somos princesas

Somos princesas?

 

Somos princesas? Perguntou-me ela quando tinha quatro anos e a minha resposta – somos o que quisermos ser – foi convencida da minha verdade.

A alegria da maternidade tinha-me feito esquecer que preparar uma criança para algumas durezas da vida, é um papel que só a vida o pode fazer. Ou seja, não era eu que a ia ensinar, era ela que ia aprender.

À primeira contrariedade forte, sofreria, à segunda, também e assim sucessivamente até perceber que sim, podemos ser princesas, mas isso não nos impede de passar por contrariedades, sofrimentos e de nos levantarmos de cada vez que isso acontece.

Não imaginava era que aos vinte anos a vida a violentaria daquela forma que a faria pôr em causa a hipótese de voltar a amar e ser amada. Assim de ter de se desenvolver tão rapidamente como mulher madura emocionalmente, a partir de tal sofrimento sentido.

A sua atitude, talvez a que lhe permitiu sobreviver a cada dia seguinte, foi a que: foi ele que sofreu, eu fiquei e ainda tenho direito de viver a vida como uma princesa. Mesmo que seja descalça como a Cinderela, ainda tenho hipótese de que um príncipe encontre o sapato de cristal e o venha experimentar em mim e … seremos felizes para sempre. Será? Questionei-me, mas quem era eu para pôr em causa aquela tábua de salvação em tão tenra idade.

Perdida sem saber o que fazer, acompanhei-a a uma última despedida e deixei-a entregue aos amigos que a rodeavam de carinho, abraços e apoio…aquele que ela necessitava e a que chamamos o amor da amizade, em que um abraço vale bem mais do que cem palavras.

Parti em direção a casa e pensei, o seu quarto está cheio de humidade (aguardávamos que uma empresa especializada iniciasse as medidas de reparação do teto). Com coragem, calcei umas luvas de borracha, fiz uma mistura de lixívia com água e um detergente de cheiro agradável e iniciei a limpeza da parede e do teto…duas horas depois, parecia que tudo tinha sido pintado e arranjado pela melhor empresa de reparações. Já eram oito horas da noite e sem telemóvel, pensei que a minha princesa, agora sem hipótese daquele príncipe descobrir o sapato de cristal que lhe poderia servir, em breve chegava, já não montada num cavalo, mas num automóvel que lhe permitia chegar a casa em segurança física, para a emocional, iam ser precisos muitos dias.

E agora? Como lhe ia dizer que ainda podia ser princesa? Nesse dia chegou e deu-me a maior lição que me podia dar como mãe. Entrou no seu quarto, viu a maravilha que eu tinha conseguido com a determinação de quem não sabe como reduzir o sofrimento alheio, olhou para mim e abraçou-me, abraçou-me e disse “mãe eu ainda sou princesa, deixei de acreditar no príncipe encantado, mas sei que sou princesa por que assim o disseste. Agora, tal como tu, vou arregaçar as mangas e fazer o que não sei fazer, lavar o coração com a melhor lixívia que há, juntar um aroma agradável e aceitar que a vida não é só isto, é muito mais.”

E lutou, lutou muito, aceitando cada dia que vinha, renascendo uns dias, entrando em modo de “cruise control” em outros. Já lá vão mais de 35 anos e quando conversamos sobre essa época, diz-me que deixou de acreditar que podia voltar a ser tão amada como tinha sido, mas que em cada relação, amava. Não só nas relações amorosas, também nas de amizade e hoje, mãe de duas filhas, na filial. Desde que suas filhas nasceram, passou a potenciar o mundo mágico das princesas e recordo-me de muitas vezes ir a sua casa e estarem as miúdas vestidas de princesa e de cada vez dizerem que eram a princesa isto ou aquilo. Mas uma frase me recordo quando lhe perguntei, ainda acreditas que podes ser princesa? E a resposta foi, eu já não, mas elas sim!

Se esta verdade atrás descrita assim o é no geral, para o sexo feminino em particular, mais se salienta, quer na luta diária pelo reconhecimento profissional, quer pela busca de valorização pelo facto de muitas das mulheres que habitam o planeta terra, desempenharem múltiplos papéis na vida, alguns deles concebidos como o papel natural da mulher. Não, não se trata de feminismo, trata-se sim de ser princesas com igualdade de oportunidades. Quais? Perguntar-me-á, as que achar que deve ter, as que achar que são as suas tábuas de estabilidade.

Questione-se de qual é a sua tábua de estabilidade? E necessita de uma de salvação? Se sim, procure-a e acima de tudo, utilize-a.

Seja princesa! 💙