Meninos não choram, os Homens sim.

Meninos não choram Homens sim

Meninos não choram, os Homens sim.

 

“(…)Desejo que encontre bastante paciência em si para suportar e bastante simplicidade para crer; que confie cada vez mais no que é difícil, entre outras coisas na sua solidão. No restante deixe a vida acontecer. Acredite-me: a vida tem razão em todos os casos(…).”
Cartas A Um Jovem Poeta de Rainer Maria Rilke

Razão e emoção são palco de grandes debates, assim como há diversos estudos e teorias sobre as diferenças entre os hemisférios cerebrais. No passado falávamos de quociente intelectual, hoje, reforça-se o quociente emocional como a base de sucesso nas relações humanas e até de uma liderança ressonante, influente. Distinguimos hard skills (competências técnicas) de soft skills (competências emocionais, de atitude), sendo que ambas são fundamentais para o desenvolvimento do Ser humano e para a relação interpessoal, as segundas são as que marcam, as que nos recordam as pessoas que cruzaram a nossa biografia de vida.
É estranho que a criação da imagem do mundo que nos rodeia, seja por nós feita com base em comportamentos que não se traduzem por palavras, no entanto, são também esses comportamentos que geram sentimentos que expressam essa mesma forma de conceção do mundo. Simplificando, a forma como “criamos” o mundo, pouco é traduzida por palavras, é-o sim por emoções – gosto não gosto, causa prazer ou não – e assim vamos rumando em cada dia, através de atos involuntários e voluntários. Quero atravessar a estrada, é voluntário. Vou virar o corpo para a estrada que quero atravessar, fletir a perna direita e esticar….é sem pensar, é automático e em reação a um pensamento.

Porque é que os meninos não choram e esta autorização é dada ao adulto homem?

A realidade é que a lágrima do silêncio, da dor, do estado emocional, não escolhe género, mas a tradição diz “meninos não choram”. O mundo que criamos diz que meninos que choram são frágeis, ficam longe do macho alfa, do rei da “selva”. A fêmea necessita de segurança, de sentir que o macho a protege….blá, blá, blá, poderia continuar por este discurso que chegaria sempre à mesma conclusão, os meninos reprimem as emoções, aprendem, através do tal mundo que criam, que devem, aliás, que têm de o fazer para se afirmarem socialmente.

Já Luís dizia “Numa menina tem outra ternura a queda da lágrima… Mas numa mulher…a lágrima não cai…balança, mas não cai… Numa menina a lágrima seca-se com lenços… Na MULHER seca-se com beijos…”

Pergunto, e no homem? Seca-a ele com os seus lenços, com a manga da camisa, ou deixa-a secar. Se a lágrima no homem fosse a expressão das lágrimas que teve de conter, talvez fossem necessários diversos dias para as escoar, vários dias que transformariam uma lágrima numa corrente de rio que desagua no desfiguramento dos olhos e do rosto. Algo que o género masculino evita por gerar interpretações depreciativas.

Ao homem adulto é-lhe permitido que chore, que expresse as suas emoções e, mesmo assim, de forma comedida. Abrace os homens da sua vida, pergunte-lhes como agiam na infância quando lhes apetecia chorar…abrace-os, abrace-os muito, eles também precisam.

Se o riso e o choro são expressões de emoções tão básicas e transversais ao Ser Humano, então chorar é uma emoção demasiado intensa para caber no choro de um menino?

É assim como se a criança, o miúdo, tivesse de manter em segredo, um segredo interno, a sua vontade da expressão da emoção…ufff que canseira e ainda por cima, acompanhada da sensação que é o único no mundo a sentir isso, uma vez que nenhum outro menino fala disso. Portanto este Ser Humano sente que é diferente…não choro, pronto! Assim vão achar que sou normal.

Quando somos criança agimos de determinada forma e de maneira repetida, estabelecemos comportamentos que se transformam em regras e que nos acompanhem ao longo do desenvolvimento.

No séc. XXI pedimos aos rapazes que sejam mais afetivos, que expressem as emoções, mas tal como muitas outras regras, a nova cultura vai levar anos a ser totalmente aceite. Temos de dar o primeiro passo, como em qualquer maratona, comecemos por criar espaço de expressão emocional a todos os meninos que nos rodeiam e aproveitemos para escutar os homens…as suas emoções, como as manifestam e como as mulheres da sua vida encaram essa expressão.

Comece hoje por dizer que é proibido proibir qualquer expressão emocional, seja sob a forma de sorriso, ou de choro. A diferença começa em Si, deixe a vida acontecer.