O tanto que ficou por dizer

O tanto que ficou para dizer

O tanto que ficou por dizer

 

Após uma longa programação de férias, decidimos ir conhecer algumas partes do Brasil. Marcámos hotel para a primeira noite, em Recife e a última, já no Rui de Janeiro.

Iniciámos a viagem, umas férias merecidas, não imaginei que aquela mulher, que foi uma referência para diversas pessoas, partiria, sem aviso prévio e de forma tão abrupta.

Aquele mês de março de 1998, na melhor das companhias, permitiu viagens interiores e a locais inimagináveis do litoral brasileiro. O cheiro da terra, misturado com os aromas que vinham do rio e da humidade característica dessa época, facilitaram todas as tomadas de decisão feitas na altura.

No regresso a Portugal, com o cansaço de uma viagem noturna, marcada por turbulência que abanava o avião, que teimosamente não saiu da rota, escutámos as instruções da assistente de bordo que explicava que em caso de despressurização, as máscaras de oxigénio caem automaticamente. Deverá colocá-la sobre o nariz e a boca … caso viaje com crianças, continuava a senhora, deve colocar em si primeiro e só depois na criança. Que bem que soou todo este discurso, esta viagem reparadora era a minha máscara de oxigénio e agora voltava preparada para colocar nos outros.

O choque foi quando um dia depois da chegada, o telefone toca de madrugada e ouço do outro lado uma voz que me era familiar, a dizer “lamento informar que…”, partiu, voou e não no mesmo avião em que eu tinha viajado. Era algo insuportável de conceber o tanto que ficou por dizer, não fui a tempo de lhe colocar a sua máscara de oxigénio.

Dizem-nos que o tempo é nosso amigo e é verdade no que diz respeito à aceitação. A idade permite-nos adquirir maturidade emocional, perceber que dizer a alguém que o, ou a, amamos significa apenas a expressão de carinho com que queremos brindar essa pessoa. Algumas gerações houve e, lamento dizer, que ainda há, em que a expressão dos afetos é sinónimo de fragilidade, de mostrar que se é fraco.

Diferentes áreas da Psicologia dizem-nos que os padrões se repetem e têm grande probabilidade de passar de geração em geração. A este fenómeno chama-se educação, criação e também aprendizagem. A criança aprende dos, e com os educadores, das relações com os amigos e com os seus ídolos familiares. Se há um irmão mais velho ele é uma referência, assim como os pais e os amigos são únicos, são a sua realidade. Aliás, são a realidade absoluta até ao dia em que se apercebe que há outros padrões de comportamento e outras referências familiares. Aí começam outras aprendizagens afetivas e o padrão de relação que a criança estabelece é influenciado por todas estas ligações, expressa ou não expressa os seus afetos, tudo depende do quanto percebe que é natural dizer a alguém que se ama e que isso apenas expressa exatamente o que sente.

Poderíamos aqui referir a discriminação de raça e como é possível amar o próximo pelo próximo e não pelo tom da sua pele. Todas estas expressões afetivas são aprendidas e influenciadas, o amor abrange uma gama diversa de estados emocionais e mentais, extremamente fortes e positivos, com diferentes significados. A mãe que assume o dever de cuidar como significado e expressão do amor, fazendo-o de forma natural e aceitando manifestações de negação e de falta de reconhecimento desses atos.
O que quer dizer hoje, agora? Conte a sua história, partilhe o seu carinho por essa(s) pessoa(s). Expresse as suas emoções e explique por que essa(s) pessoa(s) é/são importante(s) no palco da vida, da Sua vida.

Vamos conversar